Conhecendo mais um pouco… Carla M. Soares e “Alma Rebelde”

Um muito obrigada à autora e professora Carla M. Soares, que me saciou a curiosidade e ainda me deu mais algumas coisas para pensar. Também me fez mudar de ideias quanto à minha opinião (podem lê-la, se ainda não fizeram, AQUI). Portanto, aqui se vê o importante que é conhecer o que está por detrás de um livro, o que passou pela cabeça do autor ao escrevê-lo e o que alguns passos que deu para o fazer.

Um pouco sobre Carla M. Soares:

Carla M. Soares nasceu em 1971.
Formou-se em Linguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras de Lisboa, e tornou-se professora. Tem um Mestrado em Estudos Americanos, em Literatura Gótica e Film Studies. É doutorada no Instituto de História da Arte, na Faculdade onde se formou.
É, antes de mais, filha, mãe, mulher, amiga. Leitora e escritora compulsiva. Sempre.

Sinopse de Alma Rebelde:

No calor das febres que incendeiam a Lisboa do século XIX, Joana, uma burguesa jovem e demasiado inteligente para o seu próprio bem, vê o destino traçado num trato comercial entre o pai e o patriarca de uma família nobre e sem meios.
Contrariada, Joana percorre os quilómetros até à nova casa, preparando-se para um futuro de obediências e nenhuma esperança.
Mas Santiago, o noivo, é em tudo diferente do que esperava. Pouco convencional, vivido e, acima de tudo, livre, depressa desarma Joana, com promessas de igualdade, respeito e até amor.
Numa atmosfera de sedução incontida e de aventuras desenham-se os alicerces de um amor imprevisto… Mas será Joana capaz de confiar neste companheiro inesperado e entregar-se à liberdade com que sempre sonhou? Ou esconderá o encanto de Santiago um perigo ainda maior?

Entrevista:

– O texto introdutório da obra é, para mim, prosa poética. Admites que estavas inspirada? Se não podes dizer o que te inspirou para tão curto texto mas cheio de conteúdo e significados?

Quando estou a escrever, não tenho noção se a minha escrita é poética ou não. É como escrevo, e pronto. Neste caso, o que me inspirou a escrever esta introdução, de que eu gosto muito, foi a própria história, e principalmente a personagem central e o seu caminho para uma certa liberdade muito desejada. As palavras para ele surgiram prontas, quase como ficaram no fim, fiz-lhe muito poucas correcções. Se dá um tom à história? Espero que sim.

– Foi difícil escolher os nomes para as personagens? Santiago é um nome que pouco ouço por isso a minha curiosidade.

Há personagens que parece que já vêm com nome, quando para outras é preciso pensar mais e investigar, especialmente num texto com um enquadramento histórico. O nome Santiago, por exemplo, surgiu à primeira, e arrastou consigo a imagem da personagem. É um nome antigo, já pouco utilizado, mas de que eu gosto, claro que tinha que ser para a personagem favorita. Para a maioria das outras, tentei encontrar nomes simples e antigos, que lhes assentassem bem. Como a Brites, por exemplo, não a imagino com outro nome senão o nome da padeirinha de Aljubarrota. Curiosamente, o mais difícil foi o da personagem principal, que não é dos meus nomes favoritos, mas de certa forma é como a Joana, ao mesmo tempo comum e digno, com uma certa fragilidade, mas raízes fortes.

Lisboa é um dos cenários principais. Escolheste-a por ser capital, pelo seu Passado, pelo valor histórico, nada disto ou tudo isto?

Não me lembro de decidir localizar parte desta narrativa em Lisboa. Aconteceu assim, talvez por viver perto da cidade, talvez por todas as razões que apontaste. Fazer a Joana sair de Lisboa, isso sim, foi pensado, e a partir daí a capital serviu como um contraponto fascinante e perigoso, por causa das febres, para a situação e o local, mais seguro, fresco e isolado para onde Joana foi. E adequa-se à situação de Ester, mais sufocante. Roussada e Pêro da Moça já existiam, à época, nos locais onde os coloco. Isso foi importante para mim, embora não me tenha preocupado demasiado com o aspecto que teriam, uma vez que a acção se centra essencialmente na casa dos Oriaga.

– Apesar do contexto histórico da obra fazes muitas referências a Deus. És católica ou todas as referências foram exclusivamente para tornar as personagens mais completas e credíveis?

É por causa do contexto histórico da obra que as referências a Deus surgem porque, na verdade, não sou católica, nem sequer a fingir. As minhas personagens, no entanto, são-no, como naturalmente seria a maioria das pessoas da época em que se inserem. Tentei não exagerar, não é um romance religioso nem a Joaninha é fanática ou particularmente devota, mas como é que uma menina na situação dela, criada catolicamente, podia não ficar dividida? Não se rebelar e não se dirigir a Deus de vez em quando, com tão grandes provações e tanta tentação? É uma presença natural.

– Já li várias vezes que não consideras esta obra Romance Histórico e sim Romance de Época. Podes desenvolver?

Não sei se há realmente uma diferença teórica entre os dois, mas costumo fazer essa distinção. Se calhar é um disparate, mas é a minha forma de tentar explicar que não pretendi centrar esta narrativa num episódio histórico ou na caracterização de uma época, não há nenhum acontecimento ou figura histórica no cerne desta narrativa. Até já tive opiniões que me diziam que o livro não tinha História suficiente. O que eu quis foi contar uma história, que por acaso se passa noutro momento histórico, e para fazê-lo de forma coerente, para deixar a época e o que nela se passava transparecer de forma correcta, tentei ser cuidadosa com os factos e com a linguagem. Não podia, por exemplo, enviar a Joaninha para a Guarda em meia dúzia de horas, ou tê-la a dizer palavrões em vez dos seus “Oh, meu Deus!”

– Foi longo o caminho para atingires este objectivo e conquistares uma editora de renome como a Porto Editora?

O caminho mais longo foi até decidir enviar alguma coisa às editoras. Durante muito tempo nem pensei nisso, depois achei que não valia a pena, que as editoras simplesmente não publicavam novos autores, sobretudo nacionais, e que não havia motivo para me publicarem a mim. Depois de ter decidido enviá-los, mais por influência das pessoas que foram lendo os meus textos do que por ser uma rapariga corajosa, não tardou muito a ter uma resposta positiva da PE. Claro que também tive editoras que nem sequer responderam, mas isso faz parte, não é?  Enviei, menos de um mês depois pediram para conhecer-me e, em meia dúzia de meses, tinha a minha resposta definitiva. Isto em 2010… depois disso é que demorou, mas foi um processo tranquilo.

– O que significou para ti publicares um romance como este?

Sou muito contida nas minhas reacções, por isso não posso dizer que foi um sonho tornado realidade, até porque aquilo com que sonho é impossível ou reservado a poucos em terras lusas: ter o meu dia disponível para pesquisar, escrever e estudar. Isto é, viver da escrita.

Mas é, de certa forma, já a concretização de alguma coisa que também pensei que era impossível, ter a confiança de uma editora grande, um público, e uma boa aceitação por pelo menos parte desse público. Também significa maior apreensão, porque expus o que durante tanto tempo foi só meu, e agora estou sujeita ao melhor e ao pior, a ver o texto elogiado ou enxovalhado, ou pior, ignorado. Isso é o que custa mais.

Espero, no fundo, que o Alma Rebelde seja um princípio. Que tenha sucesso suficiente para que a editora estenda a confiança que depositou nesta estreia, tão inesperada num momento de cortes e contenção económica, a outros textos meus. Tenho coisas diferentes para mostrar, e estou disposta a arriscar com as opiniões. Se for caso disso, até por conta própria, como talvez venha a fazer com A Grande Mão, que pelo género não interessou à editora.

– Achas que os leitores portugueses acolheram bem a Alma Rebelde? Ou estavas à espera de um reconhecimento mais lento e com mais atrito?

Não sei muito bem como responder. Tenho tido opiniões positivas, mas não sei se posso falar de reconhecimento. Se ser reconhecido é agradar a quem lê, então posso dizer que se calhar esperava maior divergência de opiniões – mas fico contente que não seja assim! O ideal de qualquer escritor é agradar à maioria das pessoas que o lê. Se reconhecimento implica meios de comunicação ou o público em geral… bom, ainda não ouvi uma única referência ao meu livro em revistas, jornais ou na TV, e ainda não tenho feedback suficiente acerca de vendas. Há outra forma de medir o tal reconhecimento?  Não sei, por isso não sei o que dizer, a não ser que estou grata a quem tem lido e opinado de forma tão generosa sobre o Alma Rebelde.

– Como tua “amiga” e seguidora nas redes sociais não te considero uma escritora distante e inalcançável. Achas que estes relacionamentos virtuais e a tua participação em grupos de leitura e discussões literárias facilitam/ajudam o conhecimento da tua obra?

É uma questão complicada e que já me tem deixado a pensar algumas vezes. Por um lado, não tenho o ego inchado, até gostaria de o ter um pouco maior, e não está na minha personalidade ser distante ou inalcansável, a minha profissão mantém-me obrigatoriamente acessível. Gosto de responder às perguntas e de ‘falar’ com os leitores. Não é nada de especial, tantos escritores noutros países fazem-no sem problemas! Por outro lado, há uma certa tradição nacional de distanciamento e inalcansabilidade dos autores e criadores em geral. O criador no seu mundo, na sua nuvem de genialidade e originalidade. Não digo que esteja mal, nem bem, atenção. É assim. Por isso, quando me perguntas se acho que a minha disponibilidade e a minha actividade enquanto bloguista (modesta) e leitora facilita o conhecimento da obra, e eu respondo que por vezes receio que possa dificultar, no sentido em que algumas pessoas mais tradicionais poderão equacionar disponibilidade com falta de qualidade ou seriedade. Infelizmente, acredito que de quando em quando aconteça.

– Como leitora e escritora considero que tens uma escrita muito visual, ou seja, as tuas descrições são muito comparativas e sempre com aquele toque poético e que apelam à nossa imaginação. Estas características sempre estiveram presentes ou foram sendo adquiridas e aperfeiçoadas?

Creio que esse aspecto visual, que é uma característica apontada muitas vezes por quem leu este trabalho meu ou outros, faz parte do meu estilo de escrita, gosto de trabalhá-lo, tal como gosto de trabalhar os diálogos. Quero que o leitor consiga criar uma imagem dos locais e acontecimentos a partir das palavras. O difícil é encontrar o equilíbrio entre a beleza das palavras e frases, e o dinamismo do texto, o progresso equilibrado e com bom ritmo da acção. Isso varia com o tipo de romance e tem que se ir aperfeiçoando, por isso gosto de experimentar géneros, medir-lhes o pulso, descobrir como se escreve cada história.

– O que custa mais: escrever um livro ou a sua revisão?

Para mim, é mais difícil e demorado escrevê-lo, mas mais trabalhoso revê-lo. Ao escrever há que fazer brotar as ideias, deixar seguir as personagens ao encontro do fim que pretendo para elas (e que às vezes acabo por mudar). Ao rever é preciso verificar se todas funcionam e existe o tal equilíbrio que referi, se as personagens funcionam e são coerentes, se os factos batem certo, se o discurso e os diálogos são naturais para o tipo de texto que quero escrever. Se pegar dez vezes num livro, dez vezes altero coisas, mesmo que tenha 500 páginas. Nunca está pronto. Tenho sempre que me obrigar a dar um livro por acabado, ou revia, corrigia e reescrevia eternamente, nunca está bem.

Apesar de tudo, ler uma critica negativa é sempre desanimador. Tiveste alguma? Se sim, como reagiste?

Negativa, ainda não. Decerto hei de lá chegar, a não ser que de repente o livro desapareça ou mais ninguém o leia. Mas nalgumas opiniões foram apontados aspectos que agradaram menos a um leitor ou outro e isso, mesmo quando concordo com eles, custa um bocadinho. Gostava que toda a gente adorasse, não é o que desejamos todos? Mesmo, acredito, os que dizem que escrevem para si próprios. Claro que quando abrimos a ‘gaveta’ onde escondemos os nossos textos, aceitamos o melhor e o pior que o leitor tem a dizer, e por isso aceitei, reflecti e aprendi. Há erros que já não vou cometer em textos futuros. Nesses, hei de cometer outros erros.

– Uma das coisas que senti mais falta foi a descrição do casamento de Joana e Santiago. Houve alguma razão para essa lacuna no tempo?

O texto fluiu e foi seguindo os seus caminhos (não sou, como se vê, uma grande planeadora), não há uma razão propriamente dita. Olhando para trás, talvez tenha acontecido não ter sentido a necessidade de incluir a descrição da cerimónia ou da festa por ser um dado adquirido que os protagonistas se casariam, e estar mais centrada no desenrolar de outros aspectos menos certos da história, a acontecer imediatamente após o casamento. Talvez também porque a própria Joana, que acompanhamos, estar mais preocupada com eles do que com a boda. Acredito que muitas leitoras gostassem de ter assistido a esse momento, mas para mim o maior interesse, se o tivesse escrito, seria a cerimónia em si, a festa, e não o momento entre os noivos, que pelas circunstâncias não imagino muito emotivo. Podia tê-lo feito assim, claro, mas receio que pudesse roçar a lamechice…

– Tens alguma escritora ou escritor que te tenha inspirado para este livro ou até para a escolha temporal do Alma Rebelde?

Até ao Alma Rebelde, nunca tinha escrito um romance de época, nem pensado nisso sequer, nem um romance de amor, embora esse aspecto esteja sempre presente nas minhas histórias, mas sempre gostei de romances históricos, como de quase todos os géneros. Li muito cedo bastante Eça de Queiroz, Julio Dinis, que mais tarde reli e não gostei, e mais tarde muitas outras coisas que só são de época agora – porque na altura em que foram escritas eram contemporâneas. Se houve uma inspiração, foi essa. Na realidade, a  escolha da época vem de uma única ideia, a da troca das missivas entre primas, e de que as cartas eram um meio essencial de comunicação noutras épocas. Escrevi uma das carta da Ester, e depois disso a história cresceu e foi tomando rumos próprios.

– Se fosse agora que mudarias na história ou no livro?

Mudei muita coisa antes de a enviar. Tinha uma ideia inicial muito mais trágica, com um fim negro  que quase vingou, mas as personagens ganharam vida, como me acontece sempre, e o caminho acabou por ser outro. A primera versão que enviei tinha um final em aberto, mas a pedido de várias das minhas amigas-leitoras e da editora, defini e estendi o final. Não me deixaram, nem umas nem outras, mexer muito no início da história.

O que faria agora? Demasiadas coisas. Nem sou capaz de ler o livro, tive que parar, tal era a vontade de agarrar num lápis e corrigir, corrigir, corrigir. Mudava frases, expressões, acrescentava partes, retirava outras, sei lá. Sou uma reescrevedora.

– Santiago já faz suspirar muita leitoras. Sei que tens algumas sugestões de actores que o representam. Podes indicá-los?

Não era tão bom se um dia eu visse esta história em filme? E agora respondem-me “Tem juízo, rapariga!” Mas posso sempre sonhar, não é?

Uma confissão: estou sempre a imaginar um Diogo Morgado jovem e despenteado a fazer o Santiago… mas como ele já está velho para este papel, um dia andei pela net e coloquei no monster blues uma espécie de net-casting, mostrando como imagino (mais ou menos) o meu Santiago e a Joana. Não são actores, mas… que tal remeter para lá?

http://monsterblues-cms.blogspot.pt/2012/06/o-meu-net-casting-lol-alma-rebelde.html

 

Estejam atentos porque brevemente vamos ter novidades em relação a outra obra da escritora!

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6 pensamentos sobre “Conhecendo mais um pouco… Carla M. Soares e “Alma Rebelde”

    • Também acho. E seria uma boa desculpa para:
      – fazermos um meeting para sermos figurantes;
      – fazermos outro meeting para vermos o filme.

      Yeeey

      Obrigada Mafi:
      – por leres;
      – por comentares;
      – pelos elogios.

      Eu agora ando numa de fazer listas e esquemas =)

      • De nada…sabes que também tenho uma rubrica? Cof cof e já não tem aquilo dos comentários cof cof *ai que tosse que me deu agora*

        Acho uma excelente ideia mas…figurantes? Naaaa…nós devíamos ser as protagonistas!! 😀 não me importo de fazer de homem 😉

        Adorei o pormenor de: “É doutorada no Instituto de História da Arte, na Faculdade onde se formou.” ahhh é minha colega! 😀

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